terça-feira, 15 de setembro de 2026

Acervo da Cultura Caiçara: A Casa do Fandango de Paranaguá que nunca existiu

Um pouco mais de dez anos atrás, em 2015, os Mestres Fandangueiros de Paranaguá e demais integrantes dos grupos de Fandango Caiçara se mobilizaram no intuito de viabilizar a existência de uma Casa do Fandango, que seria um Centro Cultural Caiçara, com espaço para bailes, ensaios, gravações, aulas, construção de instrumentos musicais, etc.

Os debates junto a gestores e gestoras municipais da Cultura apontavam para a necessidade dessa casa ser na Ilha dos Valadares, reduto de todos os grupos de Fandango parnaguaras. Havia quem defendesse que essa Casa ficasse no Centro Histórico de Paranaguá, onde seria mais acessível e teria maior apelo turístico e cultural. O ideal talvez seria que o espaço fosse junto à cabeceira da Passarela que liga a Ilha ao Centro da Cidade.

Naquele período, a Casa Dacheux estava recém-reformada e momentaneamente ociosa, e chegou a ser anunciada como a "Casa do Fandango". A Casa Dacheux fica próxima da Catedral, no mesmo largo em que estão as casas Monsenhor Celso e Brasílio Itiberê, ambas dedicadas à Cultura. Para coroar essa decisão, foi realizado no final de junho de 2015 um baile de Fandango no imóvel (fotos a seguir).

 

Apesar de muito bonita, a Casa tinha limitações de espaço para abrigar o Fandango. A ideia não prosperou e o Fandango continuou sem casa.

Em 2016, familiares do Saudoso Mestre Eugênio, em conjunto com a Associação Mandicuera, reabilitaram a Casa do Fandango Mestre Eugênio, que fica na Ilha dos Valadares. Neste local foram realizados diversos bailes e a casa continua ativa com ensaios de Fandango, da Escola de Samba União da Ilha e outras atividades artísticas e culturais.


 A Casa do Fandango Mestre Eugênio na Ilha dos Valadares - Paranaguá. 

Alguns anos depois, em 2019, a Associação Mandicuera de Cultura popular, que também é sediada na Ilha dos Valadares, conseguiu construir seu próprio salão para bailes e outras atividades culturais. A obra foi viabilizada com recursos da mitigação do Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP). Em 2020, o Mestre Aorelio Domingues e demais integrantes da Associação Mandicuera finalizaram o Salão com a instalação de portas e janelas.

Na Sede da Associação Mandicuera também funciona uma oficina para construção dos instrumentos do Fandango e um estúdio de gravação chamado Papagaio Records, em que já foram realizados diversos registros do Grupo Mandicuera e outros. O Grupo de Fandango Dona Mariquinha, composto por Mulheres, e o Grupo Mandicuera têm o local como base.

Atualmente, a Associação Mandicuera é o único local que tem abrigado Bailes de Fandango com regularidade. O Mercado do Café, que recebia pelo menos dois bailes mensais há dez anos, hoje está praticamente ausente da cena local.

Aquela Casa do Fandango, que poderia centralizar e fomentar de forma concentrada as atividades da Cultura Caiçara, nunca chegou a se realizar. Mas o Fandango e a Cultura Caiçara sobrevivem com a força do povo que resiste e não se rende.

Paranaguá e o Litoral do Paraná como um todo abrigam diversos encantos naturais, culinários e, culturais. Reconhecer e investir no Fandango e nas Artes Caiçaras seria estratégico e fundamental para consolidar o Turismo, diminuindo a brutal sazonalidade de verão e criando atrativos que proporcionem circulação de turistas fora da temporada.

Nos últimos anos, o Governo do Estado e as Prefeituras vêm "investindo" dezenas (ou centenas?) de milhões de reais nos megashows musicais nas praias. Por mais que esses eventos atraiam multidões, eles deixam quase nenhum legado que contribua para o desenvolvimento cultural ou econômico.

Enquanto isso, os grupos de Fandango se desdobram competindo por recursos escassos em editais que só crescem em exigências e cobram um nível de profissionalismo da produção cultural que muitos não alcançam e acabam ficando de fora, independente da qualidade artística das suas produções.

Está mais do que na hora dos gestores públicos perceberem que o Fandango Caiçara é um tesouro, já reconhecido como patrimônio imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e esse tesouro tem enorme potencial de geração de emprego, renda, educação e desenvolvimento.

Mais fotos no Facebook e no Instagram do Balanço na Canoa. 

Se alguém tiver fatos a acrescentar ou correções para essa memória, fique à vontade para comentar e corrigir o que posso estar incorreto. 

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