sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Aorélio Domingues lança o CD “Amanhece – Fandango Pancada” e projeta o ritmo caiçara para o futuro



Quem conhece o trabalho do Mestre Aorélio Domingues e da Associação Mandicuera de Cultura Popular sabe que não se trata de “fazer folclore" ou de "resgatar" tradições antigas. Para eles, e para o público fiel desse gênero musical, o fandango (ainda) não é atração de museu.

Talvez seja por isso que o CD “Amanhece – Fandango Pancada” que Aorélio está lançando é tão surpreendente, mesmo para quem acompanha os grupos de Fandango e frequenta os bailes em Paranaguá e na região.



A vitalidade de modas com temáticas atuais, compostas por Aorélio e parceiros, atestam a importância do ritmo caiçara; sem causar estranheza ou discrepância ante as modas tradicionais, de domínio público.

No CD, Aorélio não recria nem reinventa o Fandango. Não há misturas mirabolantes com outros ritmos. Não é samba-rock ou manguebeat, é Fandango. Mas é novo.

Talvez isso seja difícil de entender, pois vivemos na era das novidades vazias. Tudo tem que ser novo o tempo todo, e tudo envelhece com uma velocidade estonteante, que nem temos tempo de acompanhar ou de usufruir.

Ouvindo “Amanhece – Fandango Pancada” é possível perceber que "a novidade" pode ter mais de 500 anos e continuar relevante. O Fandango é um dos ritmos mais antigos do Brasil, não é por acaso que ele continua vivo. Longa vida ao Fandango!

Só pra não perder a viagem, vale registrar que enquanto a prefeitura de Paranaguá promove shows com Luan Santana, Leonardo, Thaeme e Tiago, o CD Amanhece foi viabilizado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura... de Curitiba!

O CD será lançado em Curitiba no próximo dia 12/08 e em Paranaguá no dia 19/08 na 8a Festa do Fandango. Reproduzo abaixo o release do lançamento. O texto é da produção do CD. As fotos são do Daniel Castellano.

Amanhece – Fandango Pancada

Na ilha de Superagui - PR assim como em outras áreas do território caiçara que se estende do litoral sul fluminense ao litoral norte paranaense, a função do Fandango vem extrapolando seu papel poético e festivo, assumindo-se também como ferramenta para que as comunidades afirmem sua identidade frente a pressões externas, sobretudo no que toca aos conflitos territoriais e de direitos humanos destas populações.

Neste contexto é composta a Moda da Força Verde, composição de Aorélio Domingues e Ivo Costa, que abre o disco retratando conflitos vivenciados pelas comunidades caiçara na atualidade, das violações dos direitos humanos, à implementação de parques nacionais sobrepostos à territórios de povos e comunidades tradicionais, trágico retrato do desmanche das ainda incipientes políticas públicas para as culturas populares no Brasil.

Regravado no disco Amanhece – Fandango Pancada, a faixa Moda da Força Verde se soma à Moda da Placa Solar, e a outra do Peixe Morto, produção que sublinha o trânsito e a dinâmica dos processos criativos caiçara. Por um lado o disco evidencia a parceria de Aorélio Domingues com Cleiton Prado, mesclando sonoramente influências do fandango paulista (como os ponteios de machete e os andamentos mais acelerados das marcas) e o caráter de protesto intrínseco a boa parte das composições que resultaram desta parceria, por outro, materializando nas linhas de baixo (elétrico nas modas bailadas e acústico nas marcas batidas), inusitado instrumento que acompanha a formação entendida por "tradicional", evidenciando outros contornos e texturas sonoras, tanto das modas tradicionais quanto nas composições inéditas que compõem o disco. Em todos os casos reflexos do engajamento político e dos anseios de inovação e recepção de novos públicos, sobretudo das gerações mais jovens, presentes no ativismo de Aorélio Domingues.

Esta possível solução inovadora para que a manifestação tenha maior entrada junto a jovens e adolescentes proposta por Domingues parece dialogar com a antropologia contemporânea de Marshal Sahlins, que sugere estarmos vivendo sob o paradigma de um novo culturalismo, no qual a autoconsciência cultural dos povos, possibilita a hábil manipulação de suas identidades a ponto de que o o uso auto-reflexivo de suas culturas proporcione a adaptação destas populações locais ao Sistema Mundial!

Meu caneco!

Oxalá possamos escutar mais Fandango nas rádios, nos celulares, nas parafernalhas e caixas acústicas feitas a unha e ligadas nos geradores movidos a gasolina na Barra do Ararapira e em Pontal do Sul, em Superagui, na Vila Fátima, em Bertioga, na Vila Rápida, em São Miguel, no Sete, na Ponta do Caju, na vila Guarani...

De Valadares para o mundo!Amanhece!!

Projeto realizado através do Mecenato Subsidiado de Curitiba. Incentivo: DeBernt e Pátio Batel.

Ficha técnica:

Músicos do Fandango:
Mestre Aorelio Domingues- voz, tamanqueado, rabeca e viola
Mestre Cleyton Prado- machete, viola, voz
Mestre Zeca da Rabeca- rabeca e voz
Poro de Jesus- adufo
Gilvan Santo Amaro- caixa, afoxé e colher
Hely Souza-baixo elétrico e rabecão
Ary Giordani- colher

Músicos do Divino:
Mestre Aorelio Domingues-voz e rabeca
Ana Claúdia Decker- voz
Jairo Souza- caixa
Isaac Dias- viola

Direção Musical: Ary Giordani
Produção : Mariana Zanette
Gravado na Gramofone

Técnico de som: Vitor Pinheiro
Edições: Alvaro Ramos
Técnico de Mixagem: Fred Teixeira
Mixagem : Ary Giordani, Fred Teixeira e Alvaro Ramos
Maxterizado :  Fred Teixeira na Gramofone.

Serviço:
Show de lançamento do CD em Curitiba:
dia 12 de agosto
local: A Caiçara
R. Dr. Claudino dos Santos,90 Largo Da Ordem
horário: 20h
informações: 98450-0170 - 41-3422-2734

Show de lançamento em Paranaguá:
Dia 19 de agosto na 8 Festa do Fandango Caiçara
Local: Praça Cyro Abalem
horário : 22h

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